Os derivativos financeiros são instrumentos diversificados e complexos, mas para mostrar sua essência coloco 2 exemplos relativamente simples.
Pensemos primeiramente em um produtor de café cujo ciclo de produção seja de 6 meses, da semeadura à colheita. Ele começa a plantação do café sem saber qual será o preço da saca do produto daqui a 6 meses (quando fará a colheita), pois esse preço varia em função de inúmeras variáveis. Para ele é interessante o aumento desse preço, pois significará maiores lucros. Se o preço cair, isso implicará em menores lucros ou até mesmo em prejuízos.
Por outro lado, esse produtor vende sua produção para uma fábrica que transforma e empacota o café, distribuindo o produto para diferentes regiões consumidoras. Para essa fábrica, é interessante que o preço da saca de café no mercado caia, pois implica em menores custos de aquisição e, portanto, maiores lucros. O aumento do preço do café tem efeito contrário para essa fábrica.
Temos então duas partes que precisam uma da outra, porém com interesses conflitantes em relação ao preço do produto. Ambas estão sujeitas à oscilação do preço do café no mercado. Acontece que nem o produtor de café nem a fábrica querem "jogar" com o preço da mercadoria. O negócio deles é produção e distribuição de café e não o comportamento do preço dessa mercadoria no mercado financeiro. Uma forma de anular esse risco de oscilação do preço é firmar um contrato garantindo um preço de negociação do produto (isso não significa que a operação é livre de riscos, apenas o risco de oscilação do preço foi eliminado). Dessa forma, pelo contrato, o produtor firma o compromisso de vender sua produção a determinado preço e a fábrica se compromete a comprar essa produção por esse mesmo preço, independentemente do preço de mercado no momento da transação. Esse contrato é um derivativo.
Outro exemplo básico é de uma empresa que importa determinada matéria-prima para sua produção. Ela compra o produto de seu fornecedor no exterior em dólar com um prazo para pagamento de 60 dias. No momento em que faz a compra, assume uma dívida em dólares, cujo valor em reais depende da cotação entre as moedas. Se ao longo do prazo de pagamento a cotação do dólar sobe, sua dívida, em reais, também aumenta. Portanto, essa empresa está exposta ao risco de variação da taxa de câmbio e pode anular esse risco firmando um contrato de câmbio com um banco, através do qual se compromete a comprar dólares a determinada taxa de câmbio, enquanto o banco assume o compromisso de vender essa quantidade de dólares à taxa contratada. Mais um exemplo de derivativo.
Derivativos são ativos financeiros contratuais cujo valor deriva de um outro ativo, chamado de ativo-objeto. Preços de commodities, taxas de câmbio, taxas de juros e taxas de inflação são alguns dos ativos-objeto mais comuns nos mercados de derivativos.
Podemos definir 3 tipos básicos de operações com derivativos:
Há 2 tipos básicos de mercados:
Há 4 categorias principais de derivativos:
As operações de hedge servem esencialmente como proteção para determinado risco ao qual o agente está exposto. Os dois exemplos citados no início do artigo são operações de hedge. No primeiro caso, tanto o produtor quanto à fábrica estão expostos ao risco de variação do preço do café, e resolvem firmar um contrato para estabelecer um preço de negociação futuro. Esse contrato elimina o risco de variação do preço, pois o preço negociado será aquele estabelecido pelo contrato, independentemente do preço de mercado no momento da negociação. Dessa forma, ambas as partes se protegem desse risco de variação do preço.
No segundo exemplo, a empresa importadora está exposta ao risco de variação da taxa de câmbio, pois o aumento da cotação do Dólar implica num aumento de sua dívida em Reais. Ela então se protege desse risco fazendo um contrato que determina a cotação para compra dos dólares na data futura, eliminando assim o risco de variação da cotação.
Os Hedgers, agentes que fazem as operações de hedge, normalmente não buscam ganhar com as operações, mas sim evitar perdas, e sua atividade fim não está diretamente relacionada ao mercado financeiro.
As operações de especulação, ao contrário do hedge, servem para obtenção de ganhos a partir da exposição aos riscos. Os especuladores são agentes especializados no mercado financeiro, que analisam os mercados e formulam tendências de preços de commodities, taxas de câmbio, juros e inflação, entre outras variáveis, e investem em derivativos acreditando na concretização das tendências.
Os especuladores, por assumir riscos, estão sujeitos a altos ganhos, porém podem sofrer grandes perdas também. Mas fazem isso porque, como já dito, são agentes especializados no mercado financeiro e confiam em sua capacidade de análise dos mercados e predição de tendências. Os especuladores têm uma função muito importante no mercado de derivativos, que é dar liquidez, pois realizam grande número de operações.
Se um investidor acredita que o preço da soja irá aumentar significativamente em um futuro próximo, ele não precisa plantar soja para obter ganhos com isso. Basta aplicar em derivativos de soja que se valorizam com o aumento do preço desse ativo. Se a alta do preço se concretizar, obterá ganhos, caso contrário, sofrerá perdas.
A arbitragem é uma operação que oferece ganhos livres de risco, em função da percepção de desequilíbrios em diferentes mercados. Bancos, fundos de investimento e outros grandes investidores possuem computadores e softwares dedicados à identificação desses desequilíbrios e oportunidades de arbitragem. Através de operações combinadas com ativos e derivativos, o arbitrador estrutura uma operação que oferece ganhos independentemente das flutuações do mercado. O arbitrador tem a função de sinalizar aos mercados seus desequilíbrios, para que sejam corrigidos.
Para dar um exemplo simples de arbitragem, suponhamos que certo agente tenha as seguintes condições:
Há um desequilíbrio nessas condições que pode ser aproveitado por um arbitrador da seguinte forma. Ele toma emprestado R$ 2,90 para pagamento em 30 dias. Compra US$ 1 no mercado à vista com esse dinheiro e vende US$ 1 no mercado futuro para 30 dias. Ao final desse período, recebe R$ 3,00 pela venda do dólar e deve pagar R$ 2,98 pelo dinheiro emprestado (2,9 + 3% = 2,98). Desse modo tem um saldo positivo de R$ 0,02. Fazendo essa operação, o arbitrador sinaliza o desequilíbrio e o(s) mercado(s) se ajusta(m), através da correção das cotações e das taxas de juros.
Bibliografia utilizada:
BESSADA, O.; BARBEDO, C.; ARAÚJO, G. Mercado de derivativos no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2ª edição, 2007.
CLIMENI, L. A. O. KIMURA, H. Derivativos financeiros e seus riscos. São Paulo: Atlas, 2008.